artigos e ensaios - 2016 / Mariza Peirano

Etnografia e rituais: relato de um percurso

Etnografia não é método. Não é uma prática que, definida antes da pesquisa, vai guiar o que acontecerá no momento que se convencionou chamar de trabalho de campo. A etnografia antropológica é essencialmente uma posição teórica.

Esta proposta não é nova, mas recuperada e reciclada, como costuma acontecer nas humanidades — muitas ideias de hoje, se olharmos o passado, podem ser encontradas submersas nos trabalhos de antecessores. Lévi-Strauss (1977:26) falava sobre a “dúvida antropológica” que guia o pesquisador; T. N. Madan (1994:159), do “sentido de surpresa” necessário à investigação. A surpresa nos remete aos acasos, aos acontecimentos inesperados, ao imprevisível e, fechando um círculo, de volta aos imponderáveis de Malinowski (1984) e à defesa de EvansPritchard (1950) de que as condições fundantes para o bom resultado da pesquisa de campo devem ser encontradas não apenas na formação do pesquisador, mas também em sua personalidade e nas condições de campo.

Esta breve introdução à homenagem que me prestam Antonádia Borges, Christine de Alencar Chaves e Soraya Fleischer dá o tom do meu texto. Chamada a refletir sobre a trajetória que me fez privilegiar uma abordagem etnográfica dos rituais, só mesmo a delicadeza do convite poderia sustar temporariamente meu temperamento reservado. Sou grata também ao carinho dos ex-alunos e amigos Maia Sprandel, John Comerford, Christine de Alencar Chaves e Silvina Smietniansky, que me acompanham nesta seção. Leia na íntegra...